Depois de muito tempo, a ponto de não me lembrar da última vez, recebi uma correspondência por correios enviada por uma pessoa física. Normalmente, recebo encomendas de pedidos feitos na famigerada Amazon. Me deu uma leve nostalgia ao receber esse pedido, dois livros de um escritor baiano, ambos com dedicatórias.
Me recordo que este ano, ou ano passado, os correios da Dinamarca desativaram a entrega de cartas. E essa foi a cereja do bolo de uma mudança cultural gigantesca, que passamos no mundo inteiro. A tendência é essa, as tecnologias como SMS, Whatsapp e redes sociais fizeram com que as cartas se tornassem quase obsoletas.
Uma carta, era escrita com zelo, e demorava semanas ou meses para chegar ao destinatário. Hoje, a mensagem digital, nossa carta moderna, chega em qualquer lugar do mundo, em questão de segundos; se é que podemos colocar “segundos” no plural.
Na mensagem digital, quando me arrependo de algo que enviei, posso imediatamente apagar ou editar o que escrevi. Algo impensável em uma carta, o que fazia com que nós pensássemos muito no que escreveríamos, até para não perder a oportunidade de comunicação. Ao enviar sua carta, a única maneira de sabermos que o destinatário a recebeu e a leu, é com o recebimento de uma carta resposta. Imagine o quão torturante era esse tempo de espera. Mas mesmo assim, perder essa dinâmica, é um dos pontos baixos na história da comunicação humana.
Me recordo, quando pequeno, acho que com 6 anos, de escrever, ou, mais provável, desenhar cartas para uma menina que eu gostava. Eu entregava, pessoalmente, minhas próprias correspondências a ela. Hoje, talvez só um garoto de 6 anos faria isso. Era praticamente uma mensagem digital, feita de forma instantânea, mas a dinâmica da carta ainda era especial, só pelo fato de envolver o envio físico, sem intermediários tecnológicos. Imagine se meu desenho fosse enviado como uma figurinha de Whatsapp, Deus me livre.
Acredito que a comunicação escrita, seja ela antiga ou contemporânea, tem a função de manter contato com pessoas que gostamos, mas que não encontramos com frequência. O problema da comunicação digital é que podemos manter contato, inclusive, com pessoas que nem gostamos tanto assim, e é difícil fugir disso. Outro problema, é o seu uso como muleta, uma desculpa para não encontrarmos ninguém, e evitarmos a socialização (eu faço muito isso).
Comunicação, no tete a tete, é a reação legítima e imediata, não há tempo para atuação. Comparemos uma risada no digital e no pessoal; o “kkk” no Whatsapp é meio que um ponto final de frase, ninguém ri de verdade antes de escrever “kkk”. Agora, uma boa risada entre amigos é “inatuável”.
Uma das piores coisas das novas comunicações, e o que torna ela, uma das piores mudanças culturais de todos os tempos, é o fato de que NUNCA ficamos incomunicáveis. Por exemplo, se você gosta de uma garota, os piores momentos são os intervalos entre os encontros, onde os dois sabem que podem trocar mensagens a qualquer hora. Uma tortura quando você não tem mais 20 anos, e a disposição, paixão e tempo para isso. Se gasta saliva digital antes do tempo, e não há mais novidades a serem contadas pessoalmente.
Hoje mesmo, dei uma resposta canalha a um amigo, que me chamou para conversar, mas fui sincero dentro da minha canalhice — “Esse tempinho dá uma preguiça”. Pensemos agora, num mundo hipotético onde não há celular, redes sociais e computador; e, por acaso, encontro esse amigo, à tarde, na padaria aqui do bairro. Após rápida conversa, decidimos ir até o bar da esquina, às 19:30h. Então, voltamos às nossas respectivas casas, esperando a hora de nos encontrarmos. Te pergunto, o que teria acontecido? Sendo que os dois, neste mundo hipotético, estariam incomunicáveis. A resposta é óbvia: teríamos, os dois, chegado ao botequim no horário combinado. A dúvida se o outro iria aparecer ou não, e a desfaçatez de furar, nos faria, ambos, aparecermos no horário.
A não comunicação, obriga as pessoas a cumprirem seus compromissos.
Carrego com orgulho, ter vivido a infância e parte da adolescência, sem celular e computador. Tínhamos acesso a pouca tecnologia, e as poucas que existiam, eram limitadas. Canais de TV limitados, vídeo games caros e limitados, rádio, fita-cassete para uma TV com ¼ do tamanho da minha atual.
Sem ter acesso precocemente a essas tecnologias, a rua acaba fazendo mais parte de nossas vidas. No meu caso, o campo também foi muito importante, pois meus avós paternos e maternos, viviam ambos nos interiores, capixaba e mineiro.
Penso em como era a dinâmica com meus amigos, antes e agora. Éramos obrigados a estarmos juntos, se quiséssemos conversar. Hoje, além de podermos conversar a qualquer momento por mensagem, até quando nos encontramos pessoalmente, em algum determinado momento, alguém olhará algo no maldito celular. Qualquer dúvida futebolística de botequim, é sanada em 2 minutos com uma busca no Google. Saímos cheios de certezas dos nossos sagrados botecos.
A comunicação passou e vem passando, por trágicas mudanças culturais. Os comportamentos online estão cada vez mais repetidos, e se perdeu a autenticidade que construía nossas relações humanas. Perdemos também os jornais impressos, as revistas, e agora, estamos perdendo os livros. Tudo está se transformando em online e digital.
Quando recebi os dois livros, via correios, me transportei por um momento ao meu passado. Além dos livros em si, foram as dedicatórias especiais, feitas com meu nome e localidade, que me deixaram feliz de uma forma que nenhuma mensagem digital poderia fazer. Há coisas que não se substituem. Não haveria este texto, se ao invés de via correios, eu tivesse recebido os livros através de dois E-books em anexo e dedicatórias, no corpo de um e-mail.
O autor baiano, Franciel Cruz, escreveu assim, na dedicatória do livro Ingresia: “Tiago Valente, que esta Ingresia leve brisas de Itapuã daqui, até a Itapuã daí. Abraços”.
As brisas que vieram de Colina de Itapuã (Salvador – Bahia), chegaram até Itapuã (Vila Velha – Espírito Santo), e me fizeram escrever esse singelo texto.
