1 É impressionante como nos assustamos com o tempo. O susto chega em duas vertentes: uma, é quando percebemos que estamos envelhecendo, e rápido; outra, é quando percebemos que depois dos 30 anos, no meu caso 31, ainda estamos jovens. Com o aumento na expectativa de vida, e mudanças culturais e econômicas, cada nova geração se tornará mais jovem aos 30. Mesmo que o mundo não comporte mais esse aumento na longevidade, ele quer que gastemos nossa juventude trabalhando e girando a economia.
2 Não há nada mais irritante do que alguém que se diz velha aos 30, coisa que escuto constantemente. Quando Nelson Rodrigues dizia “jovens, envelheçam”, ele se referia ao envelhecimento mental, ao amadurecimento. Ninguém em sã consciência escolheria um corpo velho, em detrimento a um corpo jovem. Nunca me seduziu a ideia de fazer coisas de “adulto” aos 30 — eu só deixei de ser adolescente, mas quero seguir sendo jovem. A obrigação de se resolver aos 20, e estar completo aos 30, é pura pressão social, mas a rebarba disso é uma parte dos adultos de 30 e 40 anos com síndrome de peter pan, que parecem nunca querer sair da adolescência.
3 Se sinto que o tempo passou rápido, e ainda assim, me sinto jovem aos 30, as escolhas da vida se tornam tão pesadas de quando eu era um jovem mancebo, tendo que decidir meu curso da faculdade. Quando temos 20 anos, sentimos que não há um mísero segundo a se perder. Com 30, me sinto mais relaxado quanto ao tempo do que aos 20, pois agora, tenho uma maior noção do que quero, e do que essa idade representa. Consigo enxergar com mais inteligência o presente e o futuro. A experiência de vida te faz tomar melhores decisões.
4 Dizem que a pessoa que viverá 120 anos já nasceu. Será que ela também terá que decidir os seus rumos trabalhistas e estudantis, aos 18 anos? Essa pessoa terá a rica oportunidade de testar, testar e testar. Com 18, nem sabemos direito qual é nossa religião, se queremos constituir família, se gostamos de humanas ou exatas. Por dúvidas e medo, acabamos escolhendo o rumo que nossos pais querem, ou o que a sociedade impõe. Ninguém tem o direito de decidir por nós. Quem irá viver 120 anos, terá gasto apenas ¼ dá vida aos 30. Para o funcionamento melhor do capitalismo e da economia, o ideal é estarmos trabalhando o quanto antes, e aceitando qualquer condição de trabalho. Para as novas gerações, que passaram a enxergar e valorizar melhor o tempo, elas vêm deixando de aceitar qualquer situação. Como diz o ditado, “o tempo é nosso bem mais precioso”.
5 Mesmo agora, tendo noção do tempo e do que a minha idade representa, há coisas que são impostas a nós que nos foge o controle. No caso do Brasil, do Espírito Santo e de minha cidade, Vila Velha, acabo tomando decisões e atitudes baseadas neste meu contexto. Cada país, estado e cidade, te coloca num contexto diferente. Eu, que valorizo arte, educação e cultura, sempre me pego olhando para fora daqui. É bem verdade que o Espírito Santo vive um ótimo momento cultural, pois há investimento público para isso, e é daí, também, que vem a minha preocupação: A instabilidade política e econômica do país. Estamos sempre há uma eleição ruim, e de um político mal intencionado, para acabar com a graça de todo mundo. Não há projeto. Parece que estamos sempre dando voos de galinha, sem nunca decolar de verdade.
6 Queria poder construir o que quero no meu estado, e na minha cidade; mas as condições não são atrativas, e te digo o porquê. Basta um pouco de pesquisa para ver o que as universidades internacionais oferecem para estudantes estrangeiros. Preços acessíveis e educação de melhor qualidade. Para área cultural então, nem se fala. Te ensinam a língua do país, e oferecem cursos extensivos de sua escolha. O Brasil está expelindo seus jovens, e os poucos que ficam, sobrevivem em condições precárias, tentando crescer em um país que não te dá condições para isso. Não sou inocente ao ponto de pensar que os europeus nos oferecem cursos com o intuito de ajudar os amigos latinos a se qualificar. Eles querem mão de obra, e que você se fixe no país. Seria uma forma de imigração temporária e mais segura para eles, um troca troca.
7 Todas as coisas que me entristecem sobre o Brasil, não me deixam menos brasileiro. Mas não posso ser, e nem quero ser, um entusiasta idiota. Não quero viver esse relacionamento tóxico aos 31 anos. Pensar a longo prazo, também é valorizar o tempo. Vivo e faço escolhas condicionadas as perspectivas que o país me dá. Se vou sair daqui, é porque o Brasil falhou em dar condições para que eu faça e seja quem eu quero. É triste que um outro país, que não o seu, te dê mais dignidade para estudar, trabalhar e crescer.
8 O Brasil parece estar sempre nos convidando a retirar-se do recinto. Sabemos da crise geral que vivemos, e de como nosso povo é machucado a todo momento, não tendo um minuto de paz. O que estamos vendo acontecer com minha geração e as mais novas, é criminoso. Nos tiram sonhos e perspectivas. Somos robôs econômicos, números. Somos comandados por pessoas atrasadas, e nosso futuro e presente, passam por suas mãos. Não serei a pessoa que ficará esperando melhoras de algo que não te dá esperança.
9 O país do viralatismo profissional, te deixa sempre com os pés no chão, te permite sonhar pouco, e viver de migalhas esperançosas. Somos algozes de si. Cada vez nos desgostamos mais. Os jovens odeiam cada vez mais o próprio país, o que não parece gerar preocupação a ninguém. Estamos largados à nossa própria sorte. Devemos nos fortalecer individualmente e coletivamente, e ignorar fatores externos da sociedade, que só nos inclui na conversa quando votos são necessários. A “geração dos preguiçosos” ou ”geração do mimimi”, cansou de ser enganada, e não quer mais viver de esmolas.
