Não há nada mais ridículo do que quem aponta como seu defeito, “ser perfeccionista demais”. Essa palavra ficou batida, sendo adotada por gente que de perfeccionista não tem nada.
Eu, se fosse eleger um antídoto para o perfeccionista, seria a diminuição das revisões. O perfeccionista não preza pela perfeição; na verdade, ele é viciado em revisar — “E se eu jogar isso para lá; e se eu excluir isso; e se fizer dessa forma”. E nunca conclui nada. É preciso entender os “erros” como algo natural.
Antes de entrar numa parte mais filosófica, darei um exemplo prático, de como nós, perfeccionistas, somos mimados. O mundo tecnológico nos permite trabalhar à exaustão, em busca do melhor resultado possível, correto? Há diferentes formas de revisar, replanejar e refazer; e em tempo recorde. Como escritor, o exemplo que sempre me vem à cabeça, é de João Ubaldo Ribeiro; pois segundo ele, o computador foi uma benção, e ao mesmo tempo uma desgraça na sua vida de escritor. O computador facilita e dá agilidade à escrita, porém, também deixa as possibilidades de revisão muito abertas, podendo tornar o trabalho eterno.
Quando João usava sua antiga máquina de escrever, ele não tinha essas opções. Escrever era mais demorado, e a dificuldade de revisar e organizar calhamaços de folhas de papel, fazia com que muito do seu material bruto fosse enviado à editora como tinha que ir. Em vez de apagar e editar, ele preferia escrever mais e contextualizar algo que lhe tenha parecido falho. João acreditava que os livros eram mais originais, e que a facilidade de revisão no computador, atrapalhava se não fosse bem usada. Não acredito que ele desejasse a volta das máquinas de escrever, mas o ponto que ele levanta é bem interessante e plausível. O computador é meio que o calcanhar de aquiles do escritor.
Se partíssemos de um princípio que o imperfeito também é importante, não iríamos ser tão exigentes conosco. É como aquele bolo que passa um pouco do tempo de assar, e fica com as bordas levemente queimadas — Um “erro” que o deixa até mais gostoso. O imperfeito também pode deixar as coisas melhores. Pense nas pessoas que admiramos. O legal é gostar dos imperfeitos. Os grandes ídolos mundiais não eram unanimidades.
Por exemplo, quando leio Nelson Rodrigues, transito por diferentes emoções de uma página à outra — De “o Nelson é incrível”, para “o Nelson é maluco”. Essa dualidade é muito importante. Neste caso, sua imperfeição é mais no que é dito em suas crônicas, e não na forma em que as escreveu, pois claro, ele foi um grande escritor (mas não perfeito, também).
Como escritores, podemos ser imperfeitos no ritmo, no estilo, na gramática, na ortografia, no tema, na opinião; não há uma forma correta de escrever. Existem regras ortográficas e gramaticais para que as pessoas nos compreendam, mas até algumas dessas regras são ignoradas na informalidade das comunicações do dia a dia. Não existem os 10 mandamentos da escrita. Cada região brasileira tem o seu jeito imperfeito de falar. Escrever é estar num mundo livre para sermos imperfeitos como o ser humano é.
Se não há regra do perfeito para nada, por que revisamos tanto na busca da perfeição? Imagine nós, reles mortais imperfeitos, corrigindo trabalhos imperfeitos, criados por nós mesmos. Se até Einstein, que continua sendo sinônimo de gênio, teve várias teorias refutadas; e se nem todos acham que o Pelé foi o rei do futebol, por que continuamos tentando ser perfeitos? O ser humano é calcado em suas imperfeições, e ninguém conseguirá fugir disso. Aceitemos nosso destino, e sejamos felizes assim.
