Vila Velha, Brasil.
28 de Julho, 2025.
Caro Ernest,
Não poderia deixar de te mandar uma mensagem após nosso aniversário.
Sei que fiquei sumido. Pouco escrevi desde a última carta. Precisava de um tempo ocioso.
As boas novas é que eu estou criando um projeto sobre ti.
Sempre me senti conectado a você, seja pela coincidência de nossos aniversários, seja pela maneira em que você escreve.
Estou criando alguns vídeos em que falo livremente, e busco refletir sobre assuntos variados. E é divertido. Mas sempre quis criar algo além, que parta mais para criação, e menos para o freestyle.
Minha ideia é decupar você, Ernest. Entender, através dos seus escritos e falas, o que o fez ser o escritor e artista reconhecido que é. Quero ser um cientista, experimentando até encontrar a fórmula do seu sucesso literário.
Não quero realmente escrever como você. Para mim, já basta termos nascidos no mesmo dia, sermos altos e gostarmos de escrita e literatura. Só penso que seria divertido tentar fazer isso. É mais uma questão de experimentação. Farei isso com outros artistas, mas resolvi começar por você.
Mudando de assunto.
Entendo cada vez mais sua fala de que “escrever, é sentar e sangrar”. Me sinto numa hemorragia a cada texto novo que começo, mas aqui, nas cartas, não sinto nada. As palavras saem naturalmente.
Já que me sinto à vontade escrevendo cartas, talvez eu deva tentar escrever cartas maiores, tentar buscar essa linguagem como identidade em meus textos. É uma coisa que sigo matutando, como eu escrevo melhor.
Confesso que, por inveja ou algo do tipo, tento buscar facilidades que os grandes escritores tiveram contra mim. Melhores escolas e famílias abastadas, esse tipo de coisa. Mas a dolorosa verdade, é que uma penca de abastados são idiotas também, com o perdão da piada, são abestados. Tento, com esforço, ignorar a biografia dos sujeitos, e focar em suas obras. É o que importa. Tentar absorver tudo de bom que eu leio, e que isso possa naturalmente entrar em meus escritos. Sem me comparar ou tentar ser o que não sou. Cada um tem a sua história.
Oxe, fui revisar a carta e encontrei ecos que nada tem a ver com nossa prosa. Abaixo, seguem os dois devaneios. Para variar, não consigo falar contigo, sem me lembrar daquele seu livro (você sabe bem qual). Agora, também acabei fixado nos Sonetos daquele tal gênio britânico, o mais famoso.
1º devaneio: Não há, como todo respeito, nada de complexo na história de O Velho e o Mar (olha eu te provocando). Simplificando, é a história de um pescador, pescando peixes. Eu não sei como você conseguiu transformar essa premissa em algo tão profundo. O que mais me intriga, é que aparentemente, por relatos seus, você sabia que tinha transcendido ali, que tinha feito algo poderoso. Verdade ou lenda? Não precisa me responder, gosto que seja verdade.
2º devaneio: Vi essa semana, que não se deve pedir opiniões a outros escritores sobre nossos textos, pois eles podem influenciar e modificar nossa linguagem autoral. Não sei, mas creio que se Shakespeare quisesse opinar sobre minha escrita, eu aceitaria à sugestão de bom grado.
